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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

BALBÚRDIA

Thays Morales


- Bom dia, bom dia, good morning!!!
- Oi tia!
- Oi Querida!
- Abram as janelas, toda vez tenho que mandar?
- Tia?
- Que foi?
- O Pedro me bateu!
- Por que?
- Não tia, ela me provocou. Ela começou.
- Bem, não quero saber quem começou, peçam desculpas um pro outro.
- Desculpa.
- Desculpa
- Falem mais baixo, não consigo ouvir a menina aqui. Que bagunça!!
- Tia fiz pra você.
- Tia, ele me xingou.
- Xingou?
- Disse que sou burra.
- Ignora! Que é mentira.
- Mentira nada, tia. Ela é burra mesmo.
- Que coisa feia. Pede desculpas.
- Tia, a senhora ta tão linda hoje.
- Obrigada. Você é uma graça. Mas seus colegas, a maioria só sabe fazer- bagunça.
- Eu não faço bagunça, tia.
- Eu sei! Alguns fazem. Você não.
- Menino, para de jogar bola na classe. Vai acabar se machucando. Você ta surdo?
- Deixa eu jogar tia, só um pouquinho.
- Não pode. Aqui não.
- Tia posso beber água?
- Tia posso ir no banheiro?
- Pode. Não, não pode. Volta aqui, menina. Não deixei sair. Um de cada vez. Todo mundo sentado, não agüento mais essa balbúrdia!!!
- Credo, o que isso tia? Que palavra esquisita.
- Isso é o que vocês sabem fazer muito bem. Só isso.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A SALVAÇÃO

Thays Morales


Nos dias de enchente, quando a maré crescia, a água verde subia até a figueira gigante. Situação nada comum nessa época do ano, mas a primavera, este ano, surpreendia pela intensidade e durabilidade das chuvas. Tanto que o homem vem interferindo na natureza, durante décadas e décadas, com sua enorme capacidade de destruição, que muitas vezes tem-se tornado vítima de sua própria ação maléfica.
Lembro que algumas semanas atrás, assistindo ao noticiário das 8, fiquei muito comovida ao ver uma cena tão impressionante quanto heróica. Felizmente, ainda há no mundo seres humanos tão extraordinários nas suas atitudes: salvando a vida de seu semelhante e colocando a sua própria em segundo plano. Foi isso que vi com detalhes no jornal e em meio a tantas decepções com nossa espécie, senti um orgulho enorme de nós, humanos.
Uma mulher, usando um capacete, tentava salvar sua moto durante a enchente, numa cidade do interior de São Paulo. Dois ou três homens gritavam para ela largar a moto enquanto um deles segurava com força uma corda que sustentava um outro homem que, por solidariedade, se agarrava à moça na tentativa de evitar sua morte, pois a correnteza era violenta e impiedosa e dela dificilmente alguém escaparia com vida.
No momento em que vi a mulher sumir, embaixo d’água, pensei que mais uma vida estaria perdida, como tantas outras. Assisti pela televisão à dor do homem que pensou ter fracassado na luta pela vida de outrem. Mas, mesmo com toda a enxurrada e a agressividade das águas, um milagre parecia ter acontecido. Porque, depois de alguns minutos tensos e eternos, apareceu uma mão fora da água em busca de socorro. A mulher estava dentro de um carro e tinha conseguido sair dele, tendo sua vida salva e protegida, mais uma vez, com a preciosa ajuda do mesmo homem desconhecido de antes.
Chorei ao ver o resgate da moça e a alegria de homens que nem a conheciam, mas que foram fundamentais no curso da sua história. É espantoso como nós, seres ditos humanos, somos capazes de atos louváveis iguais a esse, mas, também, capazes de causar tanta destruição e interferência na natureza a ponto de sofrermos as piores conseqüências, como no caso das enchentes.
Nós destruímos a natureza sem pensar nas conseqüências, durante anos e anos, para depois nos perguntarmos porque tanta enchente, tanto desequilíbrio. Está na hora de agirmos como esses homens. Eles salvaram uma vida. Nós temos que salvar o planeta.

terça-feira, 17 de março de 2009

O que é carrapicho?

Por Thays Morales
Exercício com a palavra carrapicho

A história que leremos aqui, caro leitor, se passa em uma pequena cidade do interior do Estado de São Paulo. O nome, pouco importa.O que realmente importa é contar um pouco da infância da menina da cidade grande, que passava férias no sítio da avó materna. Quando ia para esse lugar tão especial, os irmãos, os pais brincavam e descansavam da correria do dia-a-dia.
Sendo um lugar tão tranqüilo, os adultos não precisavam se preocupar em vigiar as crianças. Assim, elas pensavam ser muito independentes e capazes de realizar aventuras.
Perto dali, havia uma pequena estrada de terra, que para gente pequena parecia enorme. Era, sempre assim, no primeiro dia que chegavam, ela e os irmãos escalavam as montanhas, trilhavam os caminhos escondidos, rolavam pela grama como se nunca ninguém tivesse feito isso antes.
Esses passeios demoravam horas a fio, mas quem se importava com o tempo? Para crianças com imaginação fértil, tudo era motivo para diversão. No momento em que saíam do sítio, pais e avós diziam:
- Não demorem, cheguem antes do almoço.

Eles, os adultos, esqueciam que crianças não têm noção de tempo ou têm bem pouca noção. Mero detalhe para pessoas de pouca idade, então, quando percebiam que estava tarde, um dizia para o outro:

- Vamos, a mãe vai brigar e avó também. Está na hora do almoço.

Enquanto voltavam para a casa aconchegante, cheia de árvores frutíferas, cachorro, rio passando e belas histórias de família, arquitetavam uma maneira dos pais e os avós não saberem por onde tinha estado.

Porém, esqueceram de detalhes importantes. Era inverno: usavam roupas quentes, calças compridas, tênis e meias. Isso dizia por onde tinham andado. Tinham acabado de inventar uma fantasiosa história para os pais e a avó quando eles perguntavam para onde tinham ido e demorado tanto.

Disseram que estavam perto dali, brincando com vizinhos, e que esqueceram a hora de voltar. Os pais e avó fingiram acreditar nisso, quando a avó esperta e experiente viu várias “coisinhas” grudadas nas calças, meias e tênis de seus netos queridos:

- Que crianças mentirosas!!! Vocês não foram aqui perto, coisa nenhuma.
- Fomos, sim, vó. A gente não mente.
- Ah, é? Então por que tem tantos carrapichos grudados em vocês?
- Carrapichos? O que é isso? É palavrão? Disse a menina.
- Não, minha neta. Carrapicho são essas plantinhas verdes presas nas roupas de vocês. E isso, só existe em lugar onde tem grama, morro.

As crianças olharam para baixo, estupefatas. Tinham mentido e se julgavam mais espertas que a avó. Além disso, nunca tinham ouvido falar em “carrapicho”. Palavra estranha. Nesse momento de reflexão, a mãe perguntou em tom de curiosidade e de chateação:

- Mas, afinal, onde vocês foram, para ter tanto carrapicho nessas roupas?

Eles contaram a verdade e até que os adultos gostaram e se divertiram muito de ouvir a respeito das brincadeiras de criança, quando tudo é possível, basta, apenas ter a natureza como cenário principal e, é claro, muito carrapicho também.