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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

PENSAMENTOS IMPERFEITOS

Ana Lucia dos Santos
Nunca entendi direito o comportamento dos brasileiros com relação às questões de princípios e ética. Sempre me incomodou a tendência das pessoas em quererem alguma vantagem, importando pouco o preço a pagar. Uma benesse qualquer, algum brinde, um prêmio, merecido ou não, o que me faz lembrar a frase popular “injeção de graça, aceito até na testa”. Ou aquela “propaganda do Gerson – jogador de futebol - em que dizia: “gosto de levar vantagem em tudo, certo!

Quando vi, nos últimos dias, o resultado de uma pesquisa que falava do perfil “ético” dos brasileiros, em que, mais de 90% das pessoas se declaravam contra práticas de corrupção, ao mesmo tempo em que 83% admitiam terem se envolvido em pequenos atos de corrupção, práticas ilegítimas, vendas de votos, etc., me senti de alguma forma contemplada em minhas inquietações.

Apesar disso, persistiu a vontade de compreender este fenômeno que me pareceu semelhante a um paradoxo, a um pensamento imperfeito. Todos nós sabemos que acontece exatamente assim, basta olhar ao redor, no cotidiano da vida de cada um de nós. Com toda a indignação com o tal perfil ético dos brasileiros, rememorando o meu dia, ainda hoje me flagrei cometendo dois pequenos deslizes. Um com o homem que veio entregar o gás, para quem dei uma gorjeta por ter trazido o botijão e colocado debaixo da pia; outro com o menino do supermercado que trouxe as compras, depois do esforço que fez pra subir com tudo no elevador, além de ter feito a entrega de bicicleta num dia de chuva. Para o menino, a gorjeta foi maior. Ambos os serviços já estavam pagos pelos empregadores, não sei se bem pagos. Mas tudo o que fiz foi estimular uma ética corrupta, a tal da gorjeta. Ou seja, fico indignada e me posiciono contra a corrupção, mas sem perceber, cometo pequenas transgressões. Senti-me envergonhada. Vergonha que me fez lembrar meu pai.

Era um homem honesto. Imagino que se ouvisse a notícia da pesquisa, oscilaria entre esbravejar indignado, intercalando com momentos de tristeza pelos cantos da casa, balançando a cabeça num gesto de desaprovação. Era do tipo de pessoa que perdia o sono por uma conta atrasada dois ou três dias. Na condição de filha, me orgulhava. Mas a verdade é que não herdei toda aquela rigidez. Se assim fosse, estaria há várias semanas sem dormir. Mas também não chego, ou não chegava a me achar parecida com os 83% dos brasileiros da pesquisa.

Apesar dos dois pequenos deslizes de hoje, saio em minha defesa, comprovando com uma situação emblemática. Há alguns anos atrás, tive um cargo de gerenciamento num serviço público. O cargo, modestamente, acredito, foi pela competência, embora também possa ter sido por conhecer pessoas que tinham poder para lá me colocar.

O problema é que eu não segui o “script” esperado pela família. Não tentei “colocar pra dentro” parentes desafortunados. E eram muitos os que me cobravam, dizendo: - É impossível que você, nesta hora, não pense na sua família, todo mundo faz isto, ajuda os seus, etc. Eu pensava, mas achava que não podia cair nessa esparrela. Por isso, acabei incompreendida e caí, sim, no ostracismo dentro da família, por sequer ter tentado dar uma força, indicar alguém. Até hoje ainda amargo um pouco deste isolamento.

Não sei se é o caso de se condenar os brasileiros. Há que se entender. Apesar de achar ser coisa para cientistas sociais e analistas de pesquisas, ainda assim, tentando apaziguar a consciência devido ao meu próprio envolvimento nos pequenos atos de corrupção, “meto a minha colher” e tento explicações.

Somos um povo que, na sua formação, viveu muitas influências. Quase 400 anos depois de ser “descoberto”, o Brasil ainda era uma sociedade que havia acabado de sair do regime escravocrata (sem esquecer que foi o último país a abolir oficialmente a escravidão). Naquela época, regra geral, os “cidadãos livres” e mais abastados tinham aversão à idéia do trabalho pesado, duro. Era coisa indigna, para negros e escravos.

Bem, se tomarmos distância e olharmos numa visão panorâmica o que aconteceu com o Brasil nos quase 110 anos seguintes aos referidos 400, que é onde estamos hoje, foi uma imensa transformação, quase um salto mortal dado da noite para o dia.

Do ponto de vista da longa história da humanidade, estes 110 anos significariam um pequeno lapso de tempo, como o passar das horas de uma noite. Corresponderia, numa visão kafkiniana, à metamorfose sofrida pelo personagem central de seu livro, que acordou numa certa manhã e havia se transformada numa grande barata. Só que no caso do Brasil, uma metamorfose invertida. Dormiu sendo uma enorme barata cascuda e acordou no dia seguinte como ser humano.

Neste caso, o Brasil vai precisar se esforçar muito, enfrentar o medo de rever conceitos, resgatar valores e princípios, ter comportamentos mais humanos. Ou, se não conseguir, como o personagem de Kafka metamorfoseado, morre como uma barata gigante e cascuda, da qual ninguém nem o mundo sentirão falta.

FAZ DE CONTA

Viviane de Almeida

Vamos brincar? De que? De faz de conta. Faz de conta, sabe? Você imagina que eu sou e eu deixo você imaginar. Nunca? Não acredito que você nunca brincou desse jeito. Quer experimentar? Sei, tem medo. Eu vou aos poucos.... e podemos parar quando você quiser.

Começamos com o tempo. Faz de conta que o tempo parou. Faz de conta que o meu cabelo é vermelho.

Falsa ou natural? Provavelmente você não saberia fazer essa distinção. O que é bom, porque a minha única alternativa é fingir que sou

Quer que eu faça de conta que sou ela? Eu faço. Não é difícil e por você faria qualquer coisa. Ficou triste? Falei alguma coisa errada? Já sei. Ela é insubstituível. Desculpe, só queria ajudar.

Tudo bem, eu entendo. Conhece as regras do jogo. Se quiser parar, é só levantar a mão.

Fala, eu não me importo. Estou acostumada. E os olhos, azuis ou verdes? Parecidos com os meus? Levemente, você diz. Então deveriam ser verdes. A luz do abajur engana. Disfarça.

Conheciam-se há muito tempo? Uma vida inteira? Que bonito. Ninguém hoje vive mais para sempre. Eu? Não quero falar sobre isso. Estou aqui para fingir.

Sente muito sua falta? Saudade é difícil, mesmo. E as mãos, como eram? Pequenas, delicadas. Aposto que eram pequenas. Assim, como de uma criança. Como eu sei? Observo as pessoas.

Sente falta dos dedos de fada dela. Pequenos. Redondos. Dispostos.

Quer ver eu acertar de novo? Não gostava de maquiagem. Tinha sempre a cara limpa. Está surpreso? Não fique.

Eu só observo as pessoas.

Era esse o nome dela. Bonito. Nome de princesa. Não chore. Eu entendo.

Vamos fingir que a minha mão é pequena. Estou tirando a maquiagem, espere um minuto.

Minhas mãos são pequenas, não uso maquiagem. Meu cabelo é ruivo e estão levemente presos com a presilha de pedras e flores que você trouxe. Não era desse lado que ela usava. Quer colocar?

Passe-me o espelho. Que colar lindo. São pérolas? Verdadeiras? Engraçado... Assim, quando vejo minha imagem refletida, minhas mãos parece que encolheram.

Quer que eu tire o esmalte? Isso não posso. A sua hora já terminou.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ladrão na era da reciclagem

Rosi Caobianco
Construção de crônica/ conto com a inserção das seguintes palavras: CARTUCHO, COTONETE, CAROCHINHA, CONFISSÃO

Esta foi a manchete que estampou um jornal da cidade de Varginha, Minas Gerais, mostrando que não é só “ET” que aparece por lá, mas também um larápio de cartuchos reciclados. Pedro Fidalgo, um ex-detento, foi preso na tarde de sábado por policiais da região. Pego com a mão na massa, não teve como negar o crime. Ironicamente, ficou entalado na janela lateral da loja de um revendedor de cartuchos de tinta para impressoras diversas.

O desafortunado ladrão já era um antigo freguês da delegacia daquela cidade. Sua ficha contém várias tentativas de roubo, muitos deles realizados com sucesso. Desta vez não deu certo, para sua infelicidade, e o evento lhe rendeu mais um processo para juntar à sua coleção de malandragem.

Fidalgo, como era conhecido, ao deixar o local do roubo, tentou passar por uma janela basculante. Porém, como já não tinha mais o corpo franzino de anos atrás, nesta vez a fuga não deu certo. Com meio corpo para fora e meio para dentro, protagonizou uma cena tragicômica, podemos assim relatar. Ficou preso justamente em suas partes baixas. Todo esforço que era feito pelos policiais para tirá-lo de lá, rendiam-lhe uivos de dor. Precisaram chamar o Corpo de Bombeiros para cerrar a janela e livrá-lo do suplício por ele mesmo criado.

Concluída a maratona de desentalar Fidalgo, levaram-no para a delegacia. Dr. Prestes, o delegado de plantão, já o conhecia e logo falou:

- Você de novo por aqui, Fidalgo?
- Estava com saudades desta hospedagem? Muito bem, conte-me sua proeza desta vez.
Fidalgo fez cara de desentendido e não respondeu.
Dr. Prestes, sem muita paciência, bateu o punho na mesa e vociferou:
- Vamos, rapaz, não está me ouvindo?
Fidalgo continuou calado.
Dr. Prestes esbravejou mais ainda:
-Sargento Meireles, traga-me um cotonete. Acho que o infeliz não está me ouvindo, ou não está querendo colaborar hoje.
- Vou te dar mais uma chance, Fidalgo, comece a falar. O que estava fazendo naquela loja e para quem era esta mercadoria?
- Se não falar logo, eu mesmo vou limpar esses ouvidos para ver se me escuta e confessa de uma vez.
- Vamos lá... Tenho mais o que fazer.
Fidalgo percebeu que o Dr. Prestes não estava brincando. E passados alguns minutos, confessou sua famigerada proeza. Estava realizando aquele roubo para entregar a mercadoria para outro comerciante de cartuchos reciclados na cidade vizinha.
Dr. Prestes prendeu Fidalgo imediatamente e foi atrás também do mandante do roubo. Parecia que o caso renderia vários receptadores.
O acontecido foi uma festa para os meios de comunicação da cidade de Varginha. As fotos de Fidalgo entalado na janela geraram comentários por semanas e mais visibilidade para o meliante. Muitos puderam concluir que as refeições da penitenciária de Varginha fizeram muito bem a ele, pois engordou ano após ano e não se deu conta. Descobriu tarde demais que não podia mais passar pelos basculantes das janelas na hora dos furtos.
A justiça tarda, mas não falha, e chegou mais uma vez a hora de Fidalgo passar outra longa temporada atrás das grades.

O CARA DO XIXI!

MINI CONTO
Antonio Taveira

Exercício com as palavras: CARTUCHO – COTONETE – CAROCHINHA – CONFISSÃO

Beto, eu tenho uma confissão a fazer.
Sabe aquela historia que te contei do cotonete? Então, foi tudo conto da carochinha. Na
Verdade, o cara se urinou todo, enfiou um cartucho de papel na cabeça e saiu do bar com as calças molhadas e deixando um rastro de urina pelo chão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

ESCREVENDO HISTÓRIAS DA CAROCHINHA

VIVIANE ALMEIDA
(Construção de crônica/ conto com a inserção das seguintes palavras: CARTUCHO, COTONETE, CAROCHINHA, CONFISSÃO)

Por que? Todos os dias me pergunto. Levanto, deito, ando entre um e outro... mas a pergunta não me larga. Espreita em todos os cantos. Tem coisas que nem a morte é capaz de apagar. Morte física ou psicológica. Não interessa, o cadáver continua em corpo presente.

Era um dia normal. Daqueles que existem em grande quantidade na vida de um ser humano, mediamente qualificado, mediamente informado. Vivido no médio.

Café tomado, passei na farmácia mais perto de casa para comprar um cartucho de cotonetes. Parecia que adivinhava que teria que ter meus ouvidos bem abertos. Reclamei do preço, respondi aos comentários de ocasião da fila. As pessoas adoram conversar em filas com pessoas que não conhecem. Acho que gostam de conversar com estranhos, uma espécie de “adultério mental”.

Minha mãe repetia inúmeras vezes: “Meu filho, não fale com estranhos”, “Meu filho, não aceite nada de ninguém”. Deve ser por isso que casei com a minha prima. Ela não era propriamente uma estranha e não era ninguém. Era linda, e minha prima.

Quando começamos a namorar, naturalmente escondido, fizemos muitas promessas e até pacto de sangue. Para falar a verdade, meio sangue, porque eu desmaiei na hora. Até hoje não suporto ver ou senti-lo. Minha mãe queria que eu fosse médico, mas a inabilidade com plasma e seus derivados foi um impeditivo. Gostava de histórias.

As da carochinha, as de reis e rainhas, principalmente as com um final feliz. Choro quando vejo filmes românticos e não consigo torcer para o bandido da história, apesar da simpatia de gênero pela masculinidade.

Marquei a data do meu casamento na véspera de Natal. Completáva-mos cinco anos de namoro. Família toda reunida. A minha família, a dela, ou para simplificar, a nossa. É a vantagem de casamento entre primos.


O casamento correu na tranqüilidade. Mães chorando, maquiagem escorrendo, dama de honra indisciplinada. Ela estava linda. Toda de branco. Pensei em desmaiar. Gosto de desmaiar. Acho que confere emoção à ocasião. E sempre há a desculpa da pressão e do calor. Era dezembro. Um ano depois do noivado. Rio de Janeiro. Nem as flores de laranjeira agüentaram.

Não desmaiei quando nosso primeiro filho nasceu. Uma menina. Guardei na gaveta o uniforme completo do Botafogo. “A culpa - disse um camarada meu - é da combinação”. Qual combinação? – perguntei eu. Ele respondeu - “do x e y”.

Ah! sexo de filho, então, agora é matemática. E eu que pensei que Deus tinha alguma coisa e ver com isso.

Comecei a me sentir diferente. Meio estranho. Não sabia explicar. Foi aos poucos. Como medicamento homeopático, mas esse acentuou os sintomas.

Sabe aquele sentimento, aquela angústia? Tentei várias vezes conversar com ela. A prima, que depois de todos esses anos parecia mais irmã - uma ligeira mudança na árvore genealógica da família.

Ela não queria ouvir. Andava envolvida com os cursos de meditação. Dizia que é para aprender o desapego. Aí pergunto, se era para desapegar, para que tanta ginástica, dermatologista, inglês e tudo o resto que nem sei do que se tratava. Estava começando a achar que o único apego para ela se livrar tem nome: o meu.

Nem isso ela quis. Preferiu manter o nome de solteira. Confesso que fiquei decepcionado, mas noiva pode tudo. Noivo só usa uma flor na lapela. Ela tem a igreja inteira.

Nem sei porque estou lembrando de tudo isso hoje. Faz tanto tempo. Deve ser porque abri a gaveta e encontrei o uniforme do Botafogo.

Estou tentando reunir os detalhes daquele dia, depois que comprei o cartucho de cotonetes e saí da farmácia.

Ainda está tudo muito confuso. Lembrei da minha mãe dizendo para não falar com estranhos. Falei com muitos estranhos na fila, naquele dia. Será por isso? Talvez, não. Ou será porque faltei na confissão antes do casamento? O Botafogo jogava no Maracanã. Tinha que ir. Fiz umas orações às pressas, pedi perdão pelo ato e pela omissão. A verdade é que o Botafogo perdeu.

Também sempre ouvi dizer que criança que não é batizada, não tem sorte na vida. Vira herege. Eu fui batizado, mas nunca soube de nenhum caso em que a que falta de confissão fosse responsável por isso.

Hoje já me perguntei, amanhã sei que vou voltar a perguntar. Não tenho pressa para descobrir o que foi que aconteceu.

Coisas de Criança

Coisas de criança
Paulo Mauá

Era uma vez a prefeitura, a praça da matriz com árvores copadas, o coreto, a escola com as crianças correndo no recreio, o pipoqueiro na esquina, a mercearia com as cores das frutas, o banco e o gerente de terno, as senhoras fofoqueiras nas janelas frente à calçada principal, o fazendeiro local e suas botas e todos os personagens de um conto da carochinha da singela vida naquela pequena cidade do interior.

O padre, de barriga avantajada e calvo, após a missa do final da tarde, começa a fechar lentamente as janelas da capela quando percebe que alguém está ajoelhado no confessionário. Parece uma criança. Pára o que está fazendo e desloca-se para o local onde o pecador mirim aguarda sua presença.

- Boa tarde, filho.
- Oi, padre Julião, é o Jorginho.
- Não precisa dizer o nome, tá bom ? Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Padre Julio estava acostumado com a informalidade na confissão inocente das crianças constantemente perseguidas pelo sentimento de culpa implantado pelas freiras do Instituto Liceu, o único colégio da cidade.

- Preciso confessar um pecado bem grande para o senhor, Pe. Julião. Um não, vários.
- Não consigo imaginar o seu coraçãozinho com tantos pecados, mas pode falar que estou aqui para ajudar você.
- Tenho mania de roubar coisas dos outros.
- Toda criança sempre pega alguma coisa aqui, ali. Isso é normal. Eu mesmo roubava galinhas do sítio vizinho para ter o que comer em casa. Mas me conta: o que você roubou ?
- Um monte de coisas: o canivete do seu Pacheco, o catavento do Paulinho, meu amigo da escola, a caixinha de cotonete do meu irmãozinho, o cachorro do guarda da estação, a coleira do cachorro dele, até a calcinha da tia Neca, calcinha não, calçona...
- Caramba... – exclamou o vigário tentando demonstrar surpresa e preocupação com os delitos do menino.
- Ah, tem a cesta de carambolas, caquis e cerejas da venda da dona Mirtes, a castanhola da Juanita, o cinzeiro da pensão Paiva, o cartucho da impressora da prefeitura, na verdade, os dois cartuchos, o colar da minha avó, o curió do seu...
- Tá bom, Jorginho. Já entendi.
- Entendeu nada, seu padre. Eu tenho essa vontade maluca que me queima o peito e eu vou pegando tudo. Tudo não: só pego coisas que começam com a letra C.
- Ahn... – exclamou o padre, agora realmente surpreso.
- Isso é normal ? Eu vou pro inferno ?
- Não sei se é normal, só sei que é pecado roubar coisas dos outros e você não vai pro inferno. Procure pensar em outras atividades que possam desviar a sua atenção dessa vontade incontrolável. Evite colocar as mãos nas coisas dos outros, qualquer coisa, começando com C, com B, não interessa a letra. O mais importante é você devolver tudo e se arrepender do que fez. Posso contar com você ?
- Pode sim. Quantas ave-marias tenho que rezar para ficar curado ?
- Reze 10 Ave-Marias, 5 Pai-Nossos e o ato de contrição ao final. Mas o mais importante é não fazer de novo e arrepender-se.
- Pode deixar. O senhor vai contar para alguém o que eu fiz ?
- De jeito nenhum, Jorginho. O que se comenta aqui, fica comigo e com Deus. Nem conte para os outros que eu roubava galinhas quando era criança, tá ?
- Puxa, estou muito contente. Estou aliviado. Deixa eu dar um abraço no senhor.

Antes que Padre Júlio pudesse responder, o menino levantou rapidamente do genuflexório e entrou no confessionário dando um abraço forte naquele senhor de batina. Ah, se todos os pecados do mundo se concentrassem nesses detalhes infantis.

Enquanto fechava o restante das janelas, o padre ainda ouviu os passos fortes e ligeiros do menino indo embora. Na penumbra foi deslocando-se até o pórtico da entrada da igreja e curiosamente não encontrou as chaves dos portões no bolso da batina. Onde foi parar o molho de chaves? Atônito, vasculhou o chão próximo, correu os olhos pelo corredor central, procurou, procurou e nada. De frente para o altar, reparou que mais alguma coisa iria fazer falta na celebração do dia seguinte.

Em casa, Jorginho abre seu baú de tesouros furtados, coloca as chaves do padre ao lado do coador de café da dona Rosinha do empório e contempla sua mais nova conquista como um troféu de ouro: o cálice da missa.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

BATE-BOCA

Trabalho coletivo

- Monalisa, você ficou sabendo do bate boca da Dona Ester com a vizinha dela?
- Não, sobre o que foi?
- Foi sobre o rendez vous da madrugada. Uma festinha particular que fizeram.
- Desta vez não ouvi nada. Nem o bate boca, nem o rendez vous. O que elas falaram?
- Falaram que o seu marido estava lá.
- Impossível! Eu estava com ele assistindo televisão e... Ah! Não... Estava com seu irmão gêmeo. Sempre os confundo.
- E agora, o que pretende fazer?
- Não sei, pois se for tirar satisfação com meu marido vou ter que falar o que fiz esta noite com o irmão dele. É melhor contar para ele que o irmão estava lá. Assim ele não poderá se entregar.
- Que rolo, menina. Você vai envolver toda a família nessa história. Vai ver você estava com o primo dos dois, isso sim. Chapada como devia estar, nem reparou que seu marido e seu cunhado tinham se mandado. Eu hein? Te vira.
- Me virar como? O que está feito está feito mas, pensando bem, o que os olhos não vêem o coração não sente. Acho que vou deixar tudo como está.
- Pôxa, mas não tem como tapar o sol com a peneira. Depois do feito, certamente haverá frutos a serem colhidos. E se não forem tão amargos, dá até para engolir, deitar e rolar.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A VINGANÇA DA ENTEADA

Ttrabalho coletivo


─ Porque você, uma menina tão bonita, fala esses palavrões? Essa situação está me deixando tensa...
─ Que se dane, Dona Tânia, liberdade não é só uma calça jeans desbotada não. Também é falar o que se quer.
─ Mas é que você emprega mal os termos. Irrita-me mais a falta de concordância do que os termos chulos que você usa.
_ A senhora não sabe o que quer. Uma hora se queixa dos meus palavrões, depois do meu português. Que se dane a senhora!
─ Muito bem, eu quero mesmo te incomodar para que você deixe a casa de seu pai, ou melhor, a minha casa.
_ Ao contrário, quem vai sair é você. Se quiser, te ajudo a fazer as malas, afinal, 14 ligações perdidas do “macaquinho” no seu celular vão deixar papai bem contente!
─ Pu-ti-nha! Você pretende contar tudo ao seu pai?
─ Sim pretendo.
─ Está bem. Não conte nada a ele, eu vou arrumar minhas coisas e vou embora!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

BATE BOCA – 1

TRABALHO COLETIVO DO LABORATÓRIO DO ESCRITOR

- Tá bom, tá bom, já entendi tudo. Férias conjugais, é isso que você quer? Assim será...
- Não é bem assim, querida, mas cá entre nós, e que ninguém nos ouça, eu ando meio de saco cheio das suas manias.
- Você está ficando muito sistemático. Não vou tolerar isto por muito tempo. Sugiro você passar uns dias na casa de sua mãe. Assim ela lava, passa e faz suas comidinhas prediletas. Para mim serão férias mais que merecidas.
- Você não entendeu mesmo. Não quero discutir. Só quero férias conjugais. Agora.
- Ok, então eu posso passar as minhas férias na casa do meu amigo.
- Amsterdã sempre me pareceu um lugar ótimo para relaxar. Minha mamãe adora, querida.
- Sua mãe é mesmo saidinha. Na idade dela deveria gostar de Caldas Novas e não Amsterdã.
- Você está fugindo do assunto.
- Não estou não. Se você quer ir para Amsterdã então vai. Eu vou sumir nos próximos dez dias e nos falamos na volta.
- Então ficamos assim. Você embarca para Amsterdã e eu para Paris. Aproveito para umas comprinhas com seu cartão de crédito.
- Ok, fechado. Nos encontramos em Londres, então. Como é mesmo o nome daquele PUB em que nos conhecemos, meu bem?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

MISERÊ

Por Antonio Taveira

- Que miserê heim patrão!

As palavras chegaram como crítica ácida. O café da manhã para comemorar a conclusão daquela etapa da obra poderia não ter acontecido, mas achou interessante unir os operários e agradecer a todos pelo sucesso. Seria uma coisa simples: sanduíches de presunto e queijo, algumas bolachas doces e salgadas, um bolo de chocolate, sucos, leite e café, um bom cardápio para a reunião. Não achou necessário contratar um bufê para isso.

Nesse momento, sua memória o levou a um passado distante, recém chegado ao Brasil ainda menor de idade, vindo sozinho de Portugal, filho caçula de uma grande família. A vontade de ter uma vida melhor e vencer em novas terras eram seu motor propulsor. Ah..., se naquele tempo tivesse um pouquinho da fartura daquela mesa. Quantas vezes passou fome ou comeu apenas um pãozinho seco durante o dia.

O início, sem qualificação, era feito de um bico aqui, um bico ali, até conseguir uma vaga como garçom, onde o problema da comida pelo menos estava resolvido. Mas a garra e a visão estavam no seu caminho. Queria ser patrão e trabalhou para isso. E quando a oportunidade bateu à sua porta, não deixou escapar. O dono, um senhor idoso e já cansado de tanto trabalhar, lhe ofereceu a venda do restaurante em condições de pai para filho. Aceitou de imediato. E trabalhou mais ainda.

Em uma viagem ao interior, o destino lhe prepararia uma surpresa. Naquela pensão, conheceu uma jovem muito bonita. A paixão se transformou em amor e o casamento selou essa união. As responsabilidades aumentaram e os filhos vieram. Três. Como fazer para criá-los com dignidade e boa instrução, para não passarem as agruras que ele passou no início da vida?

Nada tinha sido fácil. De restaurante para estacionamento, para outros negócios, até entrar no ramo da construção, construindo casas, sobrados e pequenos prédios. Como dedicação e trabalho são sinônimos de sucesso, sua empresa se transformou em uma grande construtora onde emprega várias pessoas. Resumindo: numa confortável situação financeira.

Os filhos receberam uma boa educação, se formaram e hoje caminham com as próprias pernas. Estão casados, presentearam-no com vários netos, que ele adora e enche de mimos junto com sua esposa.

Como num flash, tudo isso passou por sua cabeça, e pensou: - Acho que essa pessoa nunca passou necessidade na vida e não dá valor às coisas que recebe.

- Tem razão! – respondeu - Quem sabe no final da próxima etapa, trabalhando com mais eficiência, consigamos que nosso café da manhã não seja tão misere quanto este.

RESSACA

Por Antonio Taveira

Os Institutos de Meteorologia já haviam previsto: nos próximos dias haveria uma forte ressaca nas praias de Santos e São Vicente. Que aos olhos de todos transformou-se em um magnífico espetáculo de alegria para uns e tristeza para outros.

RESSACA é, originalmente, o movimento anormal das ondas do mar sobre si mesmas na área de arrebentação, causada por rápidas e violentas mudanças climáticas.

Apesar de nossas praias estarem dentro de uma baía, a maré veio com muita força. Na Ponta da Praia, as paredes dos calçadões foram reforçadas com mais pedras e não se fez mais estragos como no passado não muito distante. Como temos uma faixa de areia muita larga, da Ponta da Praia à Praia do Itararé, as fortes ondas puderam bater à vontade, formando grandes sulcos que demoraram alguns dias para sumir, para azar dos jogadores de tamboréu e de minitênis que não tinham areia suficiente para armar suas redes.

A nossa encantadora Ilha Porchat assistiu a todo esse espetáculo com (não usar virgula entre o sujeito e o verbo, eis uma regra) visão privilegiada, do lado de São Vicente e Santos, observando surfistas que, atraídos pelas enormes ondas, desafiavam-nas com suas pranchas de vários tamanhos e seus movimentos radicais, transformando essas praias em um enorme formigueiro colorido.

Do outro lado, as fortes ondas sem espaço nas areias para se espreguiçar, batiam fortemente contra o calçadão da praia do Gonzaguinha, proporcionando nuvens de espuma e fazendo correr quem por ali passava. A tristeza ficou logo mais à frente, no longo deck do pescador, que frágil perante a força das ondas, acabou destruído. Desolados, os pescadores não acreditavam no que acontecera com seu local de diversão.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

M. JACKSON - INFÂNCIA INTERROMPIDA

Por Ana Lucia dos Santos

É estranho como gostamos de prodígios, principalmente quando são crianças. Por mais que venha uma leve crítica à situação deles, ficamos encantados, nos remetemos às nossas infâncias, aos nossos sonhos perdidos, para nós ou para as nossas crianças próximas. Esses fenômenos mirins nos tomam de ternura, entram em nossas casas, passam a ser nossos também.
Raramente pensamos no que estaria acontecendo com aquelas pequenas vidas.

Esse é o sentimento que Michael Jackson sempre me inspirou. A imagem da criança prodígio, linda, que naturalmente foi crescendo, transformando sua beleza. Somente há alguns anos atrás, quando assistia a um vídeo antigo em que ele cantava “Ben”, me perguntei, em voz alta: - O que fizeram com aquela criança que falava com um ratinho? O que foi feito daquele menino?

Pois é, a vida já insinuava a resposta, agora mostra mais claramente. Foi uma criança interrompida, inacabada, impedida de viver a infância. E isso dói, aperta o coração.

Vivemos a vida dos prodígios mirins que invadem as nossas casas. Da mesma forma vivemos sua morte, que também invade de forma avassaladora todas as nossas casas, as concretas e as do coração. É impossível ficarmos indiferentes, não chorarmos. Aprendemos a amar o menino que foi crescendo só no corpo. Que foi se transformando em algo racionalmente inexplicável - e nem queríamos explicações. O que queríamos era continuar a amar o que ele fazia, e continuamos. Chegamos ao êxtase com a beleza musical, a estética da dança, a alegria que produzia, a solidariedade que nutria pelas crianças do mundo, seu esforço para diminuir o sofrimento delas arrecadando dinheiro, esforço que aos meus olhos o redimia de suas excentricidades.

Choro pela criança que ele não conseguiu ser, choro por nossa alegria e deleite com alguém que sofria. Choro pelo nosso afã por um glamour que tanto alimentou a mídia. Entristeço pela nossa frágil condição humana que precisa ter e ver gente se destroçando para ter um pouco de felicidade. Penitencio-me na minha condição humana. Peço perdão. Um beijo pra você, Michael criança! Que felizes sonhos infantis o acompanhem.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Continuidade do Laboratório do Escritor

Parceiros queridos:

Conforme entendimentos que vimos mantendo nos nossos encontros, encaminhei à REALEJO LIVROS proposta dando continuidade ao LABORATÓRIO DO ESCRITOR, agora em Módulo Avançado, para quem já participou das nossas oficinas literárias.

Nossa idéia é recordar o programa trabalhado e incentivar vocês a apostar em projetos mais ambiciosos de escrita que podem resultar na publicação de livros individuais ou coletâneas.

Nossa sugestão para o LABORATÓRIO DO ESCRITOR – MÓDULO AVANÇADO é a que segue:

PÚBLICO ALVO
Grupo que já participou do LABORATÓRIO DO ESCRITOR e um ou outro aluno das oficinas anteriores que tenham objetivos comuns.
FORMATO DAS AULAS
· Número máximo de vagas: 12.
· Teremos oito aulas, conservando o mesmo horário do curso anterior - sábados das 15 às 17 horas. Datas: 08, 15, 22 e 29 de agosto e 05, 12, 19 e 26 de setembro.
· As aulas serão eminentemente práticas e além dos exercícios de sensibilização individuais e em grupo, realizaremos atividades individuais de produção escrita.
· Os trabalhos produzidos serão analisados em conjunto e receberão criticas do orientador e sugestões do grupo.
· Os melhores trabalhos semanais ficarão á disposição para leitura no blog da Realejo, que deverá se constituir em um apoio para nosso trabalho.
COMO TRABALHAREMOS?

· Observando como se dá o processo de criação de uma obra literária atraente;
· Incrementando um interesse especial pela literatura e pela construção de textos literários e explorando suas possibilidades criativas;
· Mostrando a importância de ler por prazer, dos autores clássicos aos contemporâneos:
· Demonstrando que escrever é um processo, uma técnica que envolve treinamento;
· Mostrando a importância de escrever e reescrever, de dar descanso aos textos;
· Discernindo gêneros literários - crônica, conto, novela, romance, biografia – e orientando a produção de trabalhos dentro dessas características;
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Espero por vocês. Grande abraço,

Eliana Pace

PINÓQUIO ÀS AVESSAS

Fabiana Prando

Estava sonolenta no banco do passageiro do carro quando ouvi a notícia da morte súbita do ídolo pop. Michael Jackson, morto!? Sonho? Brincadeira? Sensacionalismo?

Verdade...Uma enxurrada de imagens, depoimentos e especulações desaba ao som de inesquecíveis canções... Gênio ou monstro? Qual o veredito final?

Fecho os olhos para o espetáculo e escuto um acorde há muito guardado em mim: “We are the world, we are the children...” Penso nas crianças, não naquelas das manchetes, envolvidas em suspeitas e indenizações, mas na criança que ele não foi...

Menino sem tempo para meninices, brilho lapidado à exaustão. Na Terra do Nunca, a inspiração para viver uma infância sem fim. E a vida, surpreendendo a ficção, transformou o ideal de Peter Pan num Pinóquio invertido.

Do sonho de Gepetto, o boneco de madeira virou menino de verdade. Da ambição de Joseph Jackson, o menino de verdade virou um boneco... Assistimos à morte em vida, ao talento ofuscado pelo bizarro. O humano pereceu... Uma história sem final feliz?

Não me rendo ao pessimismo, sou incapaz de matar a esperança que impulsiona meu ser. Escrevo para acender naquele que lê a chama da indignação, para que a história não se repita, para que não nos esqueçamos de quem realmente somos: humanos para sempre!

O ESTRANHO CASO DA PAÇOCA

Fabiana Prando

Muita gente não imagina
quanta história cabe escondida
no interior de uma paçoquinha...
Seja ela redonda ou até mesmo quadradinha,
o fato é que todas guardam um segredo,
um mexerico, uma fofoquinha...
O que vou contar há muito tempo aconteceu
o caso se passou
com o primo do vizinho de um amigo meu:
João Calixto de Oliveira Brito dos Santos Abreu.
Pelo tamanho do nome já revelo a distinção.
A família do moço era fina, gente de tradição.
Seus parentes mais distantes chegaram ao Brasil com a corte de D. João.
Vamos aos fatos, é finda a introdução.
Se me demoro dando voltas, o leitor perde a atenção.
E sem leitor não existe vida, a palavra jaz escrita...
Prossigamos, meus amigos, que a história é bem bonita!
João entrara na mocidade e nutria um amor desmedido pela Maroca, filha mais nova do prefeito da cidade.
Apesar da nobre origem, ora veja,
vendia doces num carrinho, na pracinha da igreja.
“Joca do doce” era conhecido por toda a redondeza.
E adivinhe só quem era a sua melhor freguesa?
Não, não era a Maroca, era a Dona Teresa.
A bela viúva comprava todos os dias, não vivia sem sobremesa.
De amarga já basta a vida, disso eu tenho certeza!
Repetia o seu bordão enquanto abastecia a farta cesta com
quindim
olho de sogra
pé-de-moleque
brigadeiro
arroz doce
canjiquinha
torta de morango
maria-mole
E um regalo para a afilhadinha,
seu doce favorito, paçoquinha!
E o nome da afilhada quero ver quem adivinha!
Maria Carolina Loureiro Barbosa, para a dinda, Maroquinha.
Teresa tinha a menina como uma filha de hora tardia,
era excessiva em seus carinhos e a mimava todos os dias.
Gulosa por natureza, tal qual a bruxa de João e Maria,
a menina para ela era um quitute.
Divertia-se beliscando suas bochechas e fazendo cóceguinhas, chamava-a de Maroca paçoca, Maroquinha paçoquinha!
E para selar o encontro da menina com o doce de amendoim,
inventou um ritual, uma tradição pra não ter mais fim.
Todos os dias às cinco horas, na janela do quarto da Maroca, depositava um pequeno pacote, com um lacinho vermelho de fora e, surpresa, paçoca.
E assim, bem cultivado, cresceu o amor da garotinha pela madrinha e pelo doce enviado.
Dezessete anos da diurna tradição criaram uma novidade,
mais que preferência, uma necessidade...
Paçoca era o doce de estimação da menina.
O doceiro Joca queria um lugar no coração de Maroca,
não se importava em dividir o espaço com o amor pela paçoca.
De repente, pronto!
Eureka, saída encontrada!
A delícia de amendoim seria sua aliada!
Num papelzinho de seda as palavras foram desenhadas:
“Mais doce que a paçoquinha são os beijos
de quem muito te admira,
adivinha!!!”
Deitados os versinhos no papel, embrulhou a iguaria e esperando a freguesa fiel, os minutos pareciam horas.
Esperar, ofício cruel...
Dona Teresa chega afinal,
acompanhada por duas amigas,
parece mais faminta que o normal.
Com olhos apetitosos abarrota sua cesta com as guloseimas do carrinho e Joca, todo contente, vai fazendo os pacotinhos.
Não esqueça Dona Teresa,
da paçoca da sua afilhada!
Lembrou o rapaz como quem não quer nada.
Quanta gentileza,
eu não ia esquecer,
com toda a certeza!
Hoje estou com um apetite de primeira grandeza!!!
Assim que a freguesa partiu,
Joca encerrou as atividades e correu para sua casa a fim de arrematar a sua engenhosidade.
Banho tomado, todo perfumado, estava um pão, como se falava então.
Ficou espreitando embaixo da janela da amada,
sonhava que ela,
tendo lido o bilhetinho,
procuraria o autor apaixonado.
Que nada, nem sinal da Maroquinha,
mas quem é essa que na direção dele caminha?
Maroca não é com certeza,
rebolativa se aproxima a dama,
vestida de vermelho e preto,
os braços longos se enlaçam no pescoço do rapaz.
Dona Teresa, disse espantado.
Sou eu mesma, e quem mais?
Vim beber seus beijos açucarados!
Não teve tempo de reagir, ficou ali, paralisado... Caiu na teia da viúva, foi devorado...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Não nos deixeis cair em tentação

E aí, Santo Antonio, só porque virei balzaquiana não me atende mais? Tem regras especificas para mocinhas casadoiras? Se sim, podia avisar, eu não perdia mais tempo com velas, flores, orações. Podia dar uma indicação de que outro santo é que resolve problemas de mulheres desamparadas, solitárias, sonhadoras, carentes, que porra que eu seja, cara, desculpe, meu santinho, mas quem sabe no tranco o senhor me ouve?

Já nos conhecemos de outros carnavais. Há muitos e muitos anos, andei amarrando você, desculpe, o senhor, de cabeça para baixo com uma fita vermelha e o deixei pendurado junto às minhas roupas. Tá bom que o homem que você, desculpe, o senhor, colocou no meu caminho não era lá essas coisas, mas eu não quis fazer pouco da sua escolha e entrei de cabeça no relacionamento. Deu no que deu. Num casamento complicado com um fulano perdido, carente, sem eira, muito menos beira. Não sei se o senhor se arrependeu dessa indicação e soprou no meu ouvido uma solução. Ou se fui eu que decidi ir contra a sua vontade e partir para outra. De todo modo, já lhe agradeci, certo?

Você também, desculpe, o senhor, não podia saber que sou volúvel e tenho sempre uma paixão recolhida por um ou outro. Já pedi que o santinho jogasse em meus braços o Orlando, ou o César, poderia ser o Rubens, o Milton, quem sabe o Jorge, o Afonso? Cá entre nós, devo ter deixado você, desculpe, o senhor, louco com tanta indecisão. Se os céus tivessem lhe indicado que um deles me servia, ia forçar a barra, não é mesmo? Como não insistiu, acabei desistindo deles, um por um.

O tempo foi passando, fui me divertindo à beça sem que o senhor jamais ficasse sabendo como, mas agora estou de volta. Sei que sua fila está grande, que pras mocinhas de hoje é mais fácil, você, desculpe, o senhor coloca montes de ficantes em volta delas e deixa que elas escolham o melhor pretendente, não deve ter muito preconceito com o que acontece em pleno século 21, não é? Mas nós, as mais experientes, sem tantos atrativos agora, como é que ficamos?

Olha, não ando pedindo mais nada a você, desculpe, ao senhor não, e há muito tempo. Deu pra notar? Fiquei de mal por minha conta. Desta vez, minha tortura foi pior: coloquei sua imagem emborcada em um copo d´água e o deixei sem qualquer oração. Não sei se foi por que você, desculpe, o senhor, estava se afogando ou por causa da minha antiga insistência, agora apareceu um homem na minha vida. Leva jeito de ser legal, boa gente. Veio a seu mandado? Se sim, aceito, vamos ver no que dá. Mas tem um detalhe. O que faço agora com aquele outro maluco que pega no meu pé há mais de ano e até hoje não sabe o que fazer comigo? Foi encomenda sua também? O pior é que é bonito, sedutor pra caramba mas cheio de defeitos, se eu resolver encarar de fato vai dar um trabalho...Pelo menos, Santo Antonio, livrai-me dessa tentação. E ficamos quites...

domingo, 14 de junho de 2009

OS DOIS LADOS DA FESTA

Ana Lucia dos Santos

Copas de árvores, de um verde escuro e forte, hoje tem matizes mais definidas. Flores amarelas salpicando o verde também ficam mais exuberantes. Vejo os coqueiros com galhos pendendo como braços estendidos, a proteger e a ungir areias e pessoas.

Hoje é dia de maratona. Corre, corre, sua o corpo, lava a alma. Corre, corre para onde? Não precisa saber. Apenas corre, arrasta a energia dos que olham e dos que passam. Misturam-se corpos, suores, gente.

Balões azuis no céu, alegria no ar. Crianças pululantes brincam de correr. Clareia o sol as imagens felizes. Generoso, ilumina gente determinada, ilumina o esforço admirável.

Festa na rua, festa na praia. Vem a certeza de que os jardins sorriem também. Raios de sol penetram nas plantas e flores sem pedir licença. Pra que pediriam?

Vejo homens fortes, homens bonitos, mulheres também. Homens não tão fortes correm, correm. Lavam o corpo de suor, lavam a alma. Quero também lavar a alma, pedir a calma que vem depois.

Um pouco mais longe, os ares e a energia da festa se diluem. Os generosos raios de sol, que aí também não pedem licença, inundam o asfalto que já queima. Impacientes e frenéticas buzinas de carros, alheias à festa, enlouquecem.

Homens e mulheres, nem fortes nem felizes, inundam um trânsito que não anda. E se perguntam: que cidade é esta, que caos é este, que dia é este!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

44º Festival de Música e Poesia de Paranavaí

F E M U P
44º Festival de Música e Poesia de Paranavaí
41º Concurso Literário de Contos
Dias 12, 13 e 14 de novembro de 2009

01 - Da promoção:
O FEMUP é uma promoção da Prefeitura de Paranavaí através da Fundação Cultural, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura.

02 - Da realização:
O Festival será realizado nos dias 12, 13 e 14 de novembro de 2009 a partir das 20h no Teatro Municipal Dr. Altino Afonso Costa.

03 - Dos objetivos:
Promover e intensificar intercâmbios de natureza artístico cultural; descobrir e valorizar novos talentos.

04 - Das inscrições:
a) PODERÃO INSCREVER-SE TODOS OS ARTISTAS RESIDENTES OU NASCIDOS NO TERRITÓRIO NACIONAL;
b) Inscrições abertas até o dia 29 de agosto de 2009;
c) Para inscrição, conta-se a data de postagem dos trabalhos;
d) Cada autor poderá inscrever até 02 trabalhos inéditos, por categoria;
e) Para a inscrição dos trabalhos, deverão ser enviadas:
06 cópias de cada trabalho apenas com o nome da obra e pseudônimo do autor.
Ficha de inscrição devidamente preenchida e assinada;
Atenção: Para cada modalidade deverá ser preenchida uma FICHA distinta;
COLOCAR TUDO DENTRO DE UM MESMO ENVELOPE.
f) O mesmo pseudônimo deve ser utilizado para todos os trabalhos e em todas as categorias;
g) Os Contos não deverão exceder a 10 (dez) folhas;
h) Todas as músicas inscritas deverão ser gravadas em CD (gravação de boa qualidade para, caso classificação, compor o CD do Festival);
j) Os trabalhos deverão ser enviados para:

Fundação Cultural de Paranavaí
Rua Guaporé, 2080 - Cx. P. 511
CEP 87705-120 Paranavaí - PR

Informações: (44) 3902-1128 - cultura@fornet.com.br - www.novacultura.com.br

05 - Do julgamento dos trabalhos:
Serão formadas Comissões Julgadoras específicas para cada modalidade e as decisões tomadas por essas Comissões serão irrecorríveis.

06 - Da classificação
Música: 30 músicas, sendo 15 da fase Regional e 15 da fase Nacional;
Poesia: 12 poesias, sendo de 03 a 05 da fase Regional e de 07 a 09 da fase Nacional;
Conto: 08 contos, sendo 03 da fase Regional e 05 da fase Nacional.

Participam da fase Regional, as cidades que compõem a Regional de Cultura da AMUNPAR.
TODOS OS TRABALHOS CONCORRERÃO EM NÍVEL NACIONAL.


PREMIAÇÃO


POESIA:
Certificado de participação (para todas as classificadas); 10 Antologias FEMUP/2009 (para todas as classificadas); 01 CD FEMUP/2009/Poesias (para todas as classificadas);
1º Lugar: R$ 2.000,00 + Troféu "Barriguda”
2º Lugar: R$ 1.700,00 + Troféu “Barriguda”
3º Lugar: R$ 1.300,00 + Troféu “Barriguda”
4º Lugar: R$ 1.100,00 + Troféu “Barriguda”
5º Lugar: R$ 1.000,00 + Troféu “Barriguda”

CONTO:
Certificado de participação (para todos os classificados); 10 Antologias FEMUP/2009 (para todos os classificados);
1º Lugar: R$ 2.000,00 + Troféu "Barriguda”
2º Lugar: R$ 1.700,00 + Troféu “Barriguda”
3º Lugar: R$ 1.300,00 + Troféu “Barriguda”
4º Lugar: R$ 1.100,00 + Troféu “Barriguda”
5º Lugar: R$ 1.000,00 + Troféu “Barriguda”


PRÊMIO REGIONAL DE CULTURA DA AMUNPAR:

POESIA
Todas as classificadas receberão: 01 CD FEMUP/2009/Poesias e 10 antologias FEMUP/2009
1º Lugar: R$ 1.000,00 + Troféu "Barriguda”
2º Lugar: R$ 800,00 + Troféu “Barriguda”
3º Lugar: R$ 500,00 + Troféu “Barriguda”

CONTO
Todos os classificados receberão: 10 antologias FEMUP/2009
1º Lugar: R$ 1.000,00 + Troféu "Barriguda”
2º Lugar: R$ 800,00 + Troféu “Barriguda”
3º Lugar: R$ 500,00 + Troféu “Barriguda”

FICHA DE INSCRIÇÃO

MODALIDADE: ( ) POESIA ( ) CONTO ( ) MÚSICA

(Atenção: Para cada MODALIDADE deverá ser preenchida uma FICHA distinta)

Título do Trabalho 1):

Título do Trabalho 2):

Nome do Autor:

Nome artístico do Autor:

Pseudônimo:

Endereço:

CEP: Cx. Postal:

Cidade: UF:

Telefone (indispensável) DDD: ( )

E-mail:

Breve Currículo (para todas as modalidades)














Esta ficha pode ser reproduzida.



AUTORIZAÇÃO

Autorizamos a utilização dos trabalhos relativos à música, conto ou poesia por nós inscritos no 44º FEMUP para publicação de livros, CD's ou quaisquer outros meios de divulgação do evento.
Declaramos conhecer e concordar com o regulamento deste Festival.

__________________,_____de____________de 2009.




Assinatura do autor

quarta-feira, 3 de junho de 2009

SEM PALAVRAS

Crônica de Eliana Pace

Acordo cedo, a mente não me permite continuar dormindo depois das 8 horas da manhã, mesmo que chova a canivete. Bocejo, me espreguiço, faço uma breve sessão de alongamento e pulo da cama. Ligo o rádio enquanto preparo o café e a noticia me prostra: um avião repleto de passageiros caiu no Oceano Atlântico. Não há possibilidade de sobreviventes. Viro uma estátua. Não sei se aumento ou reduzo o volume do rádio, se contenho as lágrimas que insistem em brotar dos meus olhos, se embarco nos sonhos que levavam aqueles homens, mulheres e crianças à Europa, se abençôo o fato de estar quietinha em casa, se amaldiçôo os deuses por encurtarem tantas vidas. A melancolia me invade, vai continuar a meu lado horas a fio, um olho no computador, o ouvido na televisão.

Leio que um casal estava seguindo em lua de mel para a França. Saíram da festa de casamento praticamente para o embarque. Seus sonhos foram parar no fundo do mar. Sinto-me uma idiota por não ter acreditado nunca no amor, por ter deixado passar tantas emoções, por não embarcar de armas e bagagens em nenhuma delas como devem ter feito o rapaz, a moça. Choro por eles que se amavam.

Um grupo de executivos de sucesso voltava para Paris depois de ganhar quatro dias de férias no Rio de Janeiro, com direito a acompanhante. Tinha se extasiado com a cidade, naturalmente. Levavam em suas câmeras ou celulares imagens do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar, de um show de mulatas. Lembro que também eu fui uma profissional de sucesso que, a exemplo deles, curtiu o merecimento de sua competência com uma viagem de sonho. Choro por eles que foram levados por um raio ingrato, uma pane, uma bomba, quem sabe, antes de poderem mostrar aos colegas os rostos felizes.

Uma família gaúcha, feita de profissionais muito bem sucedidos, cada um em sua área, ia festejar os bons tempos em um tour pela França, Grécia, Alemanha. Sabe-se lá quantas peripécias para esvaziar uma agenda feita de consultas, cirurgias. Recordo as vezes em que fiz da minha vida em família um circo. Em que lotei tanto minha agenda com compromissos supérfluos só para fugir de carinhos e cobranças afetivas. Choro pela família que continuará unida no fundo do mar.

E choro compulsivamente pelo fedelho que resolve brincar de ser piloto de Formula 1 numa rua qualquer da periferia de São Paulo. E que na mesma madrugada em que um avião cai no mar levando tantas vidas, arremessa seu carro, qual uma bola de boliche, sobre um grupo de jovens que ri depois de uma noitada, deixando mortos, na calçada, dois rapazes.

domingo, 31 de maio de 2009

Crônicas da Infância

Ana Lucia dos Santos


As lembranças de um tempo de infância me levam até Vitória, no Espírito Santo. E levam direto à minha mãe, conhecida como Maria Pequena, que contava histórias de um tempo em que também era criança. Contava coisas que, cada vez que me lembro, me parecem pouco prováveis, mas são histórias que cumprem a função de animar minhas memórias. Como a da morte prematura de seu pai e meu avô causada, pasme, pelo fato de ter comido ovo. A versão foi amplamente difundida nos anos seguintes, chegando aos netos e bisnetos.

José Clemente, esse era o nome do meu avô, era muito jovem. Aliás, com essa história, entendi que os jovens antigos também eram destemidos, meio sem noção de perigo. Claro que guardadas as devidas proporções. Tinha de quinze para dezesseis anos e teria cozinhado ovos, cortado em fatias e fritado. Que ousadia! Foi fatal, morreu imberbe, antes dos dezessete anos. Daí então, comer ovos na família, pelas gerações seguintes, só com muita cautela. Até hoje não como ovo de foram confortável e sem preocupações, tudo por causa da ousadia do meu avô. E as histórias não param aí.

Houve a famosa epopéia protagonizada por Maria Pequena e sua mãe que trabalhava como empregada doméstica numa cidade do interior de Minas Gerais, chamada Peçanha. Nunca encontrei a tal cidade nos mapas, mas acreditava na veracidade das histórias. Pois é, na tal casa, queriam ficar com a menina, minha mãe, como “cria da casa”, como era comum em cidades do interior. Teoricamente, isso lhe garantiria o futuro e, de quebra, um posto de empregada vitalícia.

A solução encontrada pela mãe de Maria Pequena para evitar o destino traçado foi fugir, mudando o rumo da história. Saíram na calada da madrugada, tinha avisado à filha, e minha mãe, para acordar em silêncio, pra ninguém ouvir. E assim foi. A imagem que ficou para aquela menina de sete anos foi de uma casa desaparecendo ao longe, vista de cima da montanha, que ia ficando cada vez menor, até sumir. Herdei a imagem, pelo visto, da casa desaparecendo ao longe, tamanha a veracidade da narrativa da minha mãe.

Andaram muitos dias, semanas à pé, de Minas Gerais até o Espírito Santo. Encontraram no trajeto outros grupos de caminhantes, tropeiros, pegaram algumas pequenas caronas em lombo de burro, numa grande e verdadeira epopéia. As imagens da caminhada, contadas por minha mãe, também herdei. O grande esforço ficou na minha mente e serviu de inspiração. Invocava as antepassadas andarilhas e guerreiras da minha família nos momentos difíceis que vieram no futuro.

Mas o que mais impressionava em Maria Pequena era o seu jeito de ser mãe. Teve nove filhos que nasceram um após o outro, sem trégua.

Os caminhos daquela mulher exigiram muita firmeza. Difícil controlar as finanças, difícil administrar casa e filhos, difícil controlar a vida agitada do marido, sempre envolvido em alguma coisa nova, fosse mulher, trabalho, Sindicato, fosse a própria a família. Tornou-se uma mulher muito séria, dura na criação dos filhos que sabiam que a mãe tinha um porte seguro. Aceitavam os seus “nãos”. E quando ela falava não, era não. Às vezes, nem falava. Bastava um olhar com os olhos apertados, como que a prometer sérios castigos em caso de desobediência. Batendo com cinta quando achava necessário, mas protegendo quando avaliava que as conseqüências poderiam ser piores, caso o pai agisse.

Houve um episódio inesquecível em que uma das crianças, numa briga entre elas, espatifou em mil pedaços o vidro de uma cristaleira antiga, muito bonita, que guardava copos e louças pouco usadas, que haviam ganhado no casamento que já ia longe. Tanto o móvel quanto o que continha eram considerados preciosos para os pais. A mãe assustada, depois de repreender os faltosos, tratou de recolher todos os cacos, tirar o vidro restante e jogar no lixo. Como o vidro da cristaleira era impecavelmente limpo, na verdade não se percebia que ele não estava lá. A mãe resolveu esperar a oportunidade certa para relatar o fato ao marido. Afinal, o Sr. Eponino andava muito nervoso naquela época, pouco trabalho na estiva, reuniões sindicais.

O tempo foi passando e uma noite, pouco mais de uma semana depois do acontecido, o Sr Eponino encontrou tempo para ouvir sua novela de rádio. Não havia televisão naquela época e as novelas de rádio eram animadamente acompanhadas nas casas. Nada diferente naquela casa. O problema é que o rádio ficava em cima da cristaleira, na altura da cabeça do pai ouvinte. Dona Maria Pequena não encontrou jeito de remover do local nem o pai, nem o rádio. Tensão na sala. O pai de pé ao lado da cristaleira, quase acabando o capítulo da novela, num momento de empolgação, se escorou no que seria o vidro do móvel e pronto, o “leite foi derramado”! Desequilibrou-se, caiu em cima de copos e pratos, quebrando vários que se estilhaçaram no chão. A emenda ficou pior que o soneto. Correia para todo lado. Não sobrou um dos filhos sequer na sala. Só se ouviram os gritos do pai:

- Maria, o que é isto aqui?
- O que aconteceu, quem quebrou este vidro?

Os filhos fecharam as portas dos quartos, não saíram mais, todos dormiram mais cedo naquela noite. Não souberam o que aconteceu depois. Certamente, os pais conversaram muito. Mas desta, nós nos livramos, graças à nossa mãe.

O fato é que ela, Dona Maria Pequena, sobreviveu a esses percalços. E de pequena não tinha nada. Era sim, uma grande mulher. Anônima, como tantas outras, mas não para os que vieram depois dela, em linha descendente. Não para os filhos, ainda que não reconhecessem sua grandeza quando pequenos, pois quase nunca é suficiente o reconhecimento dos filhos para com os pais. Ainda que não o tenham reconhecido de forma suficiente quando adultos, a própria existências dos filhos lhe fizeram jus. A firmeza de caráter para dizer não quando necessário e a flexibilidade e delicadeza quando também necessário, essa herança ela nos deixou.