Antonio Taveira
Nunca ouvi um Bom dia! Boa tarde! Ou Boa noite! Tinha sempre uma frase, uma história, um acontecimento.
─ Olá Mário, bom dia.
─ Rapaz, tava até agora na Receita Federal, só atendem quinta-feira, tenho que chegar às sete horas e pegar uma senha, depois esperar até ser atendido.
Se estava chovendo, falava da chuva; se estava sol, era o motivo do papo. Por mais cedo que chegasse ao prédio, a porta de ferro já estava aberta ─ O Mário já chegou! Encontrava-o conversando com o senhor da banca. No bar da esquina, tomava uma cervejinha no final do dia. Mas não era exclusivo deste. Variava sempre, cada hora em algum barzinho diferente, sempre sorrindo e contando “causos” e jogando conversa fora. Mas o bar não era seu cotidiano não. Conversava com o Chico do açougue, com o Zé do laticínio, com os motoristas de táxi do ponto da Senador. Era eclético, falava com todo mundo e sobre qualquer assunto. O sorriso fácil sempre estava em seu rosto. Seu escritório de contabilidade, imagino, lhe permitia uma vida financeira tranqüila complementando a aposentadoria. Por isso, quando o vizinho me mostrou o obituário, não acreditei:
─ O Mário não! Não pode ser. Uma pessoa como ele não poderia tomar uma atitude desta.
─ Parece que ele havia tentado antes. Depois da separação, ficou muito sozinho, os filhos, tinha um casal, não o procuraram mais. Proibiram-no até de ver o neto, companheiro para o jogos do Jabaquara e Portuguesinha. Eu o via trazendo uma quentinha para comer só, no escritório. Apesar de falante, sorridente, conversando com muita gente, era uma pessoa triste. Na hora do acidente, o maquinista até o viu, mas parar uma locomotiva em movimento não é uma tarefa de poucos metros.
Até hoje custo a acreditar, mas a solidão é um sentimento poderoso que leva as pessoas a cometer atos insanos como este do Mário.
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009
UMA REUNIÃO DO COMITÊ
Antonio Taveira
− Todo mundo recebeu a ata da última reunião?
Sim geral.
− O dinheiro do mês passado foi todo praquele menino da cadeira de rodas. Como não podemos dar dinheiro para pessoa física, conforme nosso estatuto, doamos através da entidade do Serrinha.
– Alguém tem notícias da Mariana filha da Célia?
− Ela ficou dois dias na UTI, mas já está bem e em casa.
– Todas vão ao baile de aniversário né?
Alguns sins.
− Nós não poderíamos...
− A verba deste mês, o que faremos com ela?
− A Sonia Costa lá da Oficina do Futuro perguntou das camisetas, é pro Natal não é?
– A reunião da Cassi vai ser aqui ou lá no escritório deles?
− Tem pouca gente indo, acho que vai ser lá!
− Só se for com o dinheiro de dezembro, por que o de novembro usaremos na festa das crianças.
− Acho que...
− A Casa Caio pediu ajuda para alimentos.
− O Lar dos Velhinhos tinha pedido fraldão e alguns remédios, tentei até com um médico amigo meu umas amostras grátis.
− Eu poderia ver com a Sonia...
− Não esqueçam o almoço da Associação dos Aposentados vai ser lá na sede da Cantareira, temos ônibus de graça. Vamos levar uma turma grande.
− Não é no mesmo dia da festa das crianças?
− Por falar em festa, a Juíza respondeu o ofício.
− Ela conseguiu alguma coisa?
− Sim, ela conseguiu patrocínio para os sanduíches, o bolo e as bebidas.
− Eu consegui...
− Célia, você fala com a mulher do algodão doce e da pipoca?
− Quando nós vamos comprar os brinquedos? Isabel, nós vamos com o seu carro que é bem maior, não?
− Sim. A gente podia ir no dia 15, quarta feira.
– Sueli, vamos fazer uma dupla pro campeonato de tranca?
− Eu já me inscrevi com a Rosa.
− Esse ano nós...
− A Jaci conseguiu falar com aquela mulher da entidade da Zona Noroeste?
− Sandra, nós já estamos no assunto da festa.
− Tá bom, desculpe.
− Vamos falar com o pessoal do Sonho de Criança, prá saber que apresentação eles vão fazer.
− Rosana, tu fala com o professor de Dança de Rua, eles são tão bons...
− Eu já havia comentado com ele, só está aguardando a confirmação da data.
− Então está tudo acertado! Vamos combinar durante a semana da festa a que horas vamos chegar para decorar a quadra.
− Toninho, você não quer falar nada?
− Sim, é um prazer muito grande fazer parte deste comitê como único homem no meio desta turma de mulheres. Eu tentei falar cinco vezes...
− Nossa, já é tarde, tenho que ir embora.
− Eu também, Célia me dá uma carona?
− Tchau meninas, a gente se vê na festa.
− Tchau...
− Tchau...
− Tchau...
− Todo mundo recebeu a ata da última reunião?
Sim geral.
− O dinheiro do mês passado foi todo praquele menino da cadeira de rodas. Como não podemos dar dinheiro para pessoa física, conforme nosso estatuto, doamos através da entidade do Serrinha.
– Alguém tem notícias da Mariana filha da Célia?
− Ela ficou dois dias na UTI, mas já está bem e em casa.
– Todas vão ao baile de aniversário né?
Alguns sins.
− Nós não poderíamos...
− A verba deste mês, o que faremos com ela?
− A Sonia Costa lá da Oficina do Futuro perguntou das camisetas, é pro Natal não é?
– A reunião da Cassi vai ser aqui ou lá no escritório deles?
− Tem pouca gente indo, acho que vai ser lá!
− Só se for com o dinheiro de dezembro, por que o de novembro usaremos na festa das crianças.
− Acho que...
− A Casa Caio pediu ajuda para alimentos.
− O Lar dos Velhinhos tinha pedido fraldão e alguns remédios, tentei até com um médico amigo meu umas amostras grátis.
− Eu poderia ver com a Sonia...
− Não esqueçam o almoço da Associação dos Aposentados vai ser lá na sede da Cantareira, temos ônibus de graça. Vamos levar uma turma grande.
− Não é no mesmo dia da festa das crianças?
− Por falar em festa, a Juíza respondeu o ofício.
− Ela conseguiu alguma coisa?
− Sim, ela conseguiu patrocínio para os sanduíches, o bolo e as bebidas.
− Eu consegui...
− Célia, você fala com a mulher do algodão doce e da pipoca?
− Quando nós vamos comprar os brinquedos? Isabel, nós vamos com o seu carro que é bem maior, não?
− Sim. A gente podia ir no dia 15, quarta feira.
– Sueli, vamos fazer uma dupla pro campeonato de tranca?
− Eu já me inscrevi com a Rosa.
− Esse ano nós...
− A Jaci conseguiu falar com aquela mulher da entidade da Zona Noroeste?
− Sandra, nós já estamos no assunto da festa.
− Tá bom, desculpe.
− Vamos falar com o pessoal do Sonho de Criança, prá saber que apresentação eles vão fazer.
− Rosana, tu fala com o professor de Dança de Rua, eles são tão bons...
− Eu já havia comentado com ele, só está aguardando a confirmação da data.
− Então está tudo acertado! Vamos combinar durante a semana da festa a que horas vamos chegar para decorar a quadra.
− Toninho, você não quer falar nada?
− Sim, é um prazer muito grande fazer parte deste comitê como único homem no meio desta turma de mulheres. Eu tentei falar cinco vezes...
− Nossa, já é tarde, tenho que ir embora.
− Eu também, Célia me dá uma carona?
− Tchau meninas, a gente se vê na festa.
− Tchau...
− Tchau...
− Tchau...
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
O CARA DO XIXI!
MINI CONTO
Antonio Taveira
Exercício com as palavras: CARTUCHO – COTONETE – CAROCHINHA – CONFISSÃO
Beto, eu tenho uma confissão a fazer.
Sabe aquela historia que te contei do cotonete? Então, foi tudo conto da carochinha. Na
Verdade, o cara se urinou todo, enfiou um cartucho de papel na cabeça e saiu do bar com as calças molhadas e deixando um rastro de urina pelo chão.
Antonio Taveira
Exercício com as palavras: CARTUCHO – COTONETE – CAROCHINHA – CONFISSÃO
Beto, eu tenho uma confissão a fazer.
Sabe aquela historia que te contei do cotonete? Então, foi tudo conto da carochinha. Na
Verdade, o cara se urinou todo, enfiou um cartucho de papel na cabeça e saiu do bar com as calças molhadas e deixando um rastro de urina pelo chão.
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terça-feira, 18 de agosto de 2009
MISERÊ
Por Antonio Taveira
- Que miserê heim patrão!
As palavras chegaram como crítica ácida. O café da manhã para comemorar a conclusão daquela etapa da obra poderia não ter acontecido, mas achou interessante unir os operários e agradecer a todos pelo sucesso. Seria uma coisa simples: sanduíches de presunto e queijo, algumas bolachas doces e salgadas, um bolo de chocolate, sucos, leite e café, um bom cardápio para a reunião. Não achou necessário contratar um bufê para isso.
Nesse momento, sua memória o levou a um passado distante, recém chegado ao Brasil ainda menor de idade, vindo sozinho de Portugal, filho caçula de uma grande família. A vontade de ter uma vida melhor e vencer em novas terras eram seu motor propulsor. Ah..., se naquele tempo tivesse um pouquinho da fartura daquela mesa. Quantas vezes passou fome ou comeu apenas um pãozinho seco durante o dia.
O início, sem qualificação, era feito de um bico aqui, um bico ali, até conseguir uma vaga como garçom, onde o problema da comida pelo menos estava resolvido. Mas a garra e a visão estavam no seu caminho. Queria ser patrão e trabalhou para isso. E quando a oportunidade bateu à sua porta, não deixou escapar. O dono, um senhor idoso e já cansado de tanto trabalhar, lhe ofereceu a venda do restaurante em condições de pai para filho. Aceitou de imediato. E trabalhou mais ainda.
Em uma viagem ao interior, o destino lhe prepararia uma surpresa. Naquela pensão, conheceu uma jovem muito bonita. A paixão se transformou em amor e o casamento selou essa união. As responsabilidades aumentaram e os filhos vieram. Três. Como fazer para criá-los com dignidade e boa instrução, para não passarem as agruras que ele passou no início da vida?
Nada tinha sido fácil. De restaurante para estacionamento, para outros negócios, até entrar no ramo da construção, construindo casas, sobrados e pequenos prédios. Como dedicação e trabalho são sinônimos de sucesso, sua empresa se transformou em uma grande construtora onde emprega várias pessoas. Resumindo: numa confortável situação financeira.
Os filhos receberam uma boa educação, se formaram e hoje caminham com as próprias pernas. Estão casados, presentearam-no com vários netos, que ele adora e enche de mimos junto com sua esposa.
Como num flash, tudo isso passou por sua cabeça, e pensou: - Acho que essa pessoa nunca passou necessidade na vida e não dá valor às coisas que recebe.
- Tem razão! – respondeu - Quem sabe no final da próxima etapa, trabalhando com mais eficiência, consigamos que nosso café da manhã não seja tão misere quanto este.
- Que miserê heim patrão!
As palavras chegaram como crítica ácida. O café da manhã para comemorar a conclusão daquela etapa da obra poderia não ter acontecido, mas achou interessante unir os operários e agradecer a todos pelo sucesso. Seria uma coisa simples: sanduíches de presunto e queijo, algumas bolachas doces e salgadas, um bolo de chocolate, sucos, leite e café, um bom cardápio para a reunião. Não achou necessário contratar um bufê para isso.
Nesse momento, sua memória o levou a um passado distante, recém chegado ao Brasil ainda menor de idade, vindo sozinho de Portugal, filho caçula de uma grande família. A vontade de ter uma vida melhor e vencer em novas terras eram seu motor propulsor. Ah..., se naquele tempo tivesse um pouquinho da fartura daquela mesa. Quantas vezes passou fome ou comeu apenas um pãozinho seco durante o dia.
O início, sem qualificação, era feito de um bico aqui, um bico ali, até conseguir uma vaga como garçom, onde o problema da comida pelo menos estava resolvido. Mas a garra e a visão estavam no seu caminho. Queria ser patrão e trabalhou para isso. E quando a oportunidade bateu à sua porta, não deixou escapar. O dono, um senhor idoso e já cansado de tanto trabalhar, lhe ofereceu a venda do restaurante em condições de pai para filho. Aceitou de imediato. E trabalhou mais ainda.
Em uma viagem ao interior, o destino lhe prepararia uma surpresa. Naquela pensão, conheceu uma jovem muito bonita. A paixão se transformou em amor e o casamento selou essa união. As responsabilidades aumentaram e os filhos vieram. Três. Como fazer para criá-los com dignidade e boa instrução, para não passarem as agruras que ele passou no início da vida?
Nada tinha sido fácil. De restaurante para estacionamento, para outros negócios, até entrar no ramo da construção, construindo casas, sobrados e pequenos prédios. Como dedicação e trabalho são sinônimos de sucesso, sua empresa se transformou em uma grande construtora onde emprega várias pessoas. Resumindo: numa confortável situação financeira.
Os filhos receberam uma boa educação, se formaram e hoje caminham com as próprias pernas. Estão casados, presentearam-no com vários netos, que ele adora e enche de mimos junto com sua esposa.
Como num flash, tudo isso passou por sua cabeça, e pensou: - Acho que essa pessoa nunca passou necessidade na vida e não dá valor às coisas que recebe.
- Tem razão! – respondeu - Quem sabe no final da próxima etapa, trabalhando com mais eficiência, consigamos que nosso café da manhã não seja tão misere quanto este.
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RESSACA
Por Antonio Taveira
Os Institutos de Meteorologia já haviam previsto: nos próximos dias haveria uma forte ressaca nas praias de Santos e São Vicente. Que aos olhos de todos transformou-se em um magnífico espetáculo de alegria para uns e tristeza para outros.
RESSACA é, originalmente, o movimento anormal das ondas do mar sobre si mesmas na área de arrebentação, causada por rápidas e violentas mudanças climáticas.
Apesar de nossas praias estarem dentro de uma baía, a maré veio com muita força. Na Ponta da Praia, as paredes dos calçadões foram reforçadas com mais pedras e não se fez mais estragos como no passado não muito distante. Como temos uma faixa de areia muita larga, da Ponta da Praia à Praia do Itararé, as fortes ondas puderam bater à vontade, formando grandes sulcos que demoraram alguns dias para sumir, para azar dos jogadores de tamboréu e de minitênis que não tinham areia suficiente para armar suas redes.
A nossa encantadora Ilha Porchat assistiu a todo esse espetáculo com (não usar virgula entre o sujeito e o verbo, eis uma regra) visão privilegiada, do lado de São Vicente e Santos, observando surfistas que, atraídos pelas enormes ondas, desafiavam-nas com suas pranchas de vários tamanhos e seus movimentos radicais, transformando essas praias em um enorme formigueiro colorido.
Do outro lado, as fortes ondas sem espaço nas areias para se espreguiçar, batiam fortemente contra o calçadão da praia do Gonzaguinha, proporcionando nuvens de espuma e fazendo correr quem por ali passava. A tristeza ficou logo mais à frente, no longo deck do pescador, que frágil perante a força das ondas, acabou destruído. Desolados, os pescadores não acreditavam no que acontecera com seu local de diversão.
Os Institutos de Meteorologia já haviam previsto: nos próximos dias haveria uma forte ressaca nas praias de Santos e São Vicente. Que aos olhos de todos transformou-se em um magnífico espetáculo de alegria para uns e tristeza para outros.
RESSACA é, originalmente, o movimento anormal das ondas do mar sobre si mesmas na área de arrebentação, causada por rápidas e violentas mudanças climáticas.
Apesar de nossas praias estarem dentro de uma baía, a maré veio com muita força. Na Ponta da Praia, as paredes dos calçadões foram reforçadas com mais pedras e não se fez mais estragos como no passado não muito distante. Como temos uma faixa de areia muita larga, da Ponta da Praia à Praia do Itararé, as fortes ondas puderam bater à vontade, formando grandes sulcos que demoraram alguns dias para sumir, para azar dos jogadores de tamboréu e de minitênis que não tinham areia suficiente para armar suas redes.
A nossa encantadora Ilha Porchat assistiu a todo esse espetáculo com (não usar virgula entre o sujeito e o verbo, eis uma regra) visão privilegiada, do lado de São Vicente e Santos, observando surfistas que, atraídos pelas enormes ondas, desafiavam-nas com suas pranchas de vários tamanhos e seus movimentos radicais, transformando essas praias em um enorme formigueiro colorido.
Do outro lado, as fortes ondas sem espaço nas areias para se espreguiçar, batiam fortemente contra o calçadão da praia do Gonzaguinha, proporcionando nuvens de espuma e fazendo correr quem por ali passava. A tristeza ficou logo mais à frente, no longo deck do pescador, que frágil perante a força das ondas, acabou destruído. Desolados, os pescadores não acreditavam no que acontecera com seu local de diversão.
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terça-feira, 12 de maio de 2009
Crônica sobre Infância
UMA LEMBRANÇA DO TEMPO DE INFÂNCIA
Antonio Taveira
Mamãe nos avisou que no dia seguinte, domingo de manhã, íamos visitar a Tia Albertina. Minha irmã e eu ficamos eufóricos, pois titia morava no Monte Serrat e estávamos curiosos para conhecê-lo. Logo cedo, pegamos o bonde para a cidade, nossa aventura começara.
Dia de passeio, tudo é festa: o trajeto do bonde, a passagem pelo cais e os prédios do centro. Na chegada ao Monte Serrat, o bondinho que sobe o morro acabara de sair, teríamos que esperar mais meia-hora para pegar o próximo. Papai propôs que fôssemos pela escada, nós aceitamos na hora, mamãe não se opôs e lá fomos todos enfrentar os mais de 400 degraus. Como criança não se cansa, agüentamos bem a subida sem reclamar e meus pais, ainda novos, não tiveram problemas com o desafio.
Ao chegarmos lá em cima, logo vimos a casinha branca que ficava no ponto mais alto do morro. Após cumprimentar os tios, fomos explorar o terreno, que mais parecia um sítio de tão grande que era. Os fundos davam para a encosta do morro e a extensão de sua vista não tinha fim. Podíamos ver a cidade de Santos até a praia e, mais para o lado, os prédios do Guarujá.
Titio comentou que era criador de pássaros e perguntamos onde estavam as gaiolas. Ele respondeu que não tinha, pois criava os pássaros em liberdade, e levou algumas frutas cortadas até uma madeira colocada em uma árvore. Durante a manhã toda, vimos uma desfile de sabiás, canários, bem-te-vis, beija-flores e um pássaro que achei o mais lindo e me lembro até hoje, todo preto com a cabeça vermelha, de nome tié-sangue.
Goiaba, carambola, jabuticaba, abacate eram as árvores frutíferas que tinham na casa, e minha irmã e eu subimos e comemos das frutas que estavam maduras. E tinha mais: nas plantações de abóbora, batata doce, milho e cana de açúcar, corríamos a brincar de esconde-esconde e pegador.
Titia nos chamou para um lanche. Pães, bolo, doce de batata doce e espiga de milho verde cozida, hum! que delícia, e para beber, lógico “garapa”, pois titio tinha uma moenda de cana de açúcar no barracão ao lado da casa.
A manhã passou rapidamente e já estava na hora de irmos embora. Após as despedidas aos tios e promessas de retorno (que infelizmente não aconteceram), ganhamos um prêmio: vamos descer de bondinho. Que farra, que alegria!
No retorno para casa, relembramos os felizes momentos que tivemos neste passeio e o cansaço e o doce sacolejar do bonde nos fizeram dormir no banco até chegarmos a nosso ponto de descida.
Antonio Taveira
Mamãe nos avisou que no dia seguinte, domingo de manhã, íamos visitar a Tia Albertina. Minha irmã e eu ficamos eufóricos, pois titia morava no Monte Serrat e estávamos curiosos para conhecê-lo. Logo cedo, pegamos o bonde para a cidade, nossa aventura começara.
Dia de passeio, tudo é festa: o trajeto do bonde, a passagem pelo cais e os prédios do centro. Na chegada ao Monte Serrat, o bondinho que sobe o morro acabara de sair, teríamos que esperar mais meia-hora para pegar o próximo. Papai propôs que fôssemos pela escada, nós aceitamos na hora, mamãe não se opôs e lá fomos todos enfrentar os mais de 400 degraus. Como criança não se cansa, agüentamos bem a subida sem reclamar e meus pais, ainda novos, não tiveram problemas com o desafio.
Ao chegarmos lá em cima, logo vimos a casinha branca que ficava no ponto mais alto do morro. Após cumprimentar os tios, fomos explorar o terreno, que mais parecia um sítio de tão grande que era. Os fundos davam para a encosta do morro e a extensão de sua vista não tinha fim. Podíamos ver a cidade de Santos até a praia e, mais para o lado, os prédios do Guarujá.
Titio comentou que era criador de pássaros e perguntamos onde estavam as gaiolas. Ele respondeu que não tinha, pois criava os pássaros em liberdade, e levou algumas frutas cortadas até uma madeira colocada em uma árvore. Durante a manhã toda, vimos uma desfile de sabiás, canários, bem-te-vis, beija-flores e um pássaro que achei o mais lindo e me lembro até hoje, todo preto com a cabeça vermelha, de nome tié-sangue.
Goiaba, carambola, jabuticaba, abacate eram as árvores frutíferas que tinham na casa, e minha irmã e eu subimos e comemos das frutas que estavam maduras. E tinha mais: nas plantações de abóbora, batata doce, milho e cana de açúcar, corríamos a brincar de esconde-esconde e pegador.
Titia nos chamou para um lanche. Pães, bolo, doce de batata doce e espiga de milho verde cozida, hum! que delícia, e para beber, lógico “garapa”, pois titio tinha uma moenda de cana de açúcar no barracão ao lado da casa.
A manhã passou rapidamente e já estava na hora de irmos embora. Após as despedidas aos tios e promessas de retorno (que infelizmente não aconteceram), ganhamos um prêmio: vamos descer de bondinho. Que farra, que alegria!
No retorno para casa, relembramos os felizes momentos que tivemos neste passeio e o cansaço e o doce sacolejar do bonde nos fizeram dormir no banco até chegarmos a nosso ponto de descida.
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sexta-feira, 3 de abril de 2009
Exercício com palavras
Antonio Taveira
Exercício com as palavras
Xaxim
Amêndoa
Apocalipse
Arrasta – pé
Jabuticaba
Mágoas
Pêndulo
Trevas
Vingança
- Pru causo de quê? – Pergunto Nhô Laudelino.
A festa corria solta. O povoado compareceu todo, afinal, era a festa mais popular da região. Os mais velhos sentados às mesas, degustando os quitutes deliciosos que as barraquinhas se esmeravam em oferecer. Principalmente a torta de AMÊNDOA que Dona Cotinha fazia com todo carinho. Os jovens faziam um ARRASTA-PÉ improvisado no chão de terra batida, ao som do Grupo de Forró do Lobão, e as crianças corriam e brincavam com estalinhos e outras traquinagens. A decoração estava muito bonita como sempre. As bandeirolas cortando todo o espaço da grande barraca de lona, e as bromélias presas aos tuchos de XAXIM, davam uma agradável sensação àquele espaço. E no canto, alheio à toda agitação, aquele grupo de homens bebericava um licor de JABUTICABA e proseava.
- POCALIPSE! – Profético, respondeu Nhô Bento! Todos curvaram-se para a frente para ouvir melhor, seus olhos pareciam que saltariam do rosto.
- Ara , Nhô Bento, que troço é isso? - Emendou Ditinho.
- É o fim dus tempo, continuou Nhô Bento. Todos sabiam que quando o Coroné chegasse lá, sua VINGANÇA, tornaria aquela fazenda que tinha o nome de Santa Gertrudes em TREVAS.
- Conte logo tudo isso. - Apressou Nhô Laudelino.
- Carma sô! As mininas gêmias, filhas do Coroné, sempre foram muito espevitadas e arteras, também pudera, o trabaio que dero pra nasce, levaram sua mãe pra junto di Deus, e dexaro o Coroné criando elas suzinho, além di cuida de toda aquelas terras que pareciam num te fim.
- Tudo começô, quando chegaro aqueles dois peão que vinheram da cidade, e foram trabaiá na fazenda. As mininas, já não tão mininas assim, conheceram os moço e garraram a ouvir suas história da cidade grande.
- Cumpadi! Bote mais um poquinho desse licor que já to cá garganta seca.
- Co essas história, as mininas foram ficando cas cabeça cheias das idéias, di ír pra conhece a tar da cidade grande. Mas vixi que o Coroné ia dexá. Queria as filha bem pertinho dele, e nenhum cabra safado cercano suas querida.
- Mas as mininas foram criando a idéia di fugi cos peão. Prepararo a viage pra uns dias dispois à noite. Iam pra estação, pegá o trem noturno pra capitar.
- O Coroné, continuou, naquela noite, tava se sentindo meio isquisito. Sento na sala e tava tomano uma cachacinha. Com sodade de sua muié, fico prestano atenção no vai e vem do PÊNDULO que tinha no carrilhão di casa, e cabo dormecendo. Cordô di madrugada, e foi vê se as mininas tava drumindo. No quarto as cama tava rumadas e nada delas. Prucura daque prucura dali, preguntô pra todo mundo, e ninguém sabia di nada. Chamo toda peãozada, quando percebeu que os novo peão, também num tavam.
- Descunjuro esses dois se tivero feito arguma coisa cas minhas mininas!
- Botô na caminhonete seus miores home, e foi pra vila, onde fico sabeno que elas tinha pego o trem.
A atenção dos homens estava em Nhô Bento, além da sua voz, parecia que não nada tinham em seu redor. Uma rodada mais de licor foi servida, e ele continuou.
- No caminho pra Capitar, o Coroné ia pensano, pru quê elas tinha feito aquilo? Deve di te sido coisa daqueles dois, num tinha ido muito co jeito deles, mas fôro mandado pelo cumpadi Venâncio, num diviam di se ruim. MAGOADO, foi pensano e alembro qui as minina pediro pra modi vir visita a capitar, mas não dexo, i agora tava rependido.
- Prá sorte du Coroné, numa cidadi du caminho, o trem demoro pra carrega di água e chego trasado, e ele assim qui botoô os pé na istação, viram as mininas saindo do trem cos peão.
- As mininas quando viro o pai, começaro a treme qui nem vara verde, e ele falo:
- Mias fia, quero pedi discurpa por nunca ter trazido oces pra cá, e vamu aproveita qui tamo aqui pra passiá. As mininas deram um largo sorriso e correram abraça o pai.
- Dispois o Coroné virou prus seus home e disse: Leva esses dois, dá uma coça bem dada, e joga eles em quarque lugar e voltem pra fazenda, eu vô fica aqui cás minina.
- Os dois, concluiu Nhô Bento, dizem que ficaro um mês sem pode senta e nem durmi di costa, ca coça qui levaro.
As cabeças dos ouvintes fizeram um movimento de aprovação ao castigo dado.
Ao fundo um acordeão “cantava”:
Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João...
Exercício com as palavras
Xaxim
Amêndoa
Apocalipse
Arrasta – pé
Jabuticaba
Mágoas
Pêndulo
Trevas
Vingança
- Pru causo de quê? – Pergunto Nhô Laudelino.
A festa corria solta. O povoado compareceu todo, afinal, era a festa mais popular da região. Os mais velhos sentados às mesas, degustando os quitutes deliciosos que as barraquinhas se esmeravam em oferecer. Principalmente a torta de AMÊNDOA que Dona Cotinha fazia com todo carinho. Os jovens faziam um ARRASTA-PÉ improvisado no chão de terra batida, ao som do Grupo de Forró do Lobão, e as crianças corriam e brincavam com estalinhos e outras traquinagens. A decoração estava muito bonita como sempre. As bandeirolas cortando todo o espaço da grande barraca de lona, e as bromélias presas aos tuchos de XAXIM, davam uma agradável sensação àquele espaço. E no canto, alheio à toda agitação, aquele grupo de homens bebericava um licor de JABUTICABA e proseava.
- POCALIPSE! – Profético, respondeu Nhô Bento! Todos curvaram-se para a frente para ouvir melhor, seus olhos pareciam que saltariam do rosto.
- Ara , Nhô Bento, que troço é isso? - Emendou Ditinho.
- É o fim dus tempo, continuou Nhô Bento. Todos sabiam que quando o Coroné chegasse lá, sua VINGANÇA, tornaria aquela fazenda que tinha o nome de Santa Gertrudes em TREVAS.
- Conte logo tudo isso. - Apressou Nhô Laudelino.
- Carma sô! As mininas gêmias, filhas do Coroné, sempre foram muito espevitadas e arteras, também pudera, o trabaio que dero pra nasce, levaram sua mãe pra junto di Deus, e dexaro o Coroné criando elas suzinho, além di cuida de toda aquelas terras que pareciam num te fim.
- Tudo começô, quando chegaro aqueles dois peão que vinheram da cidade, e foram trabaiá na fazenda. As mininas, já não tão mininas assim, conheceram os moço e garraram a ouvir suas história da cidade grande.
- Cumpadi! Bote mais um poquinho desse licor que já to cá garganta seca.
- Co essas história, as mininas foram ficando cas cabeça cheias das idéias, di ír pra conhece a tar da cidade grande. Mas vixi que o Coroné ia dexá. Queria as filha bem pertinho dele, e nenhum cabra safado cercano suas querida.
- Mas as mininas foram criando a idéia di fugi cos peão. Prepararo a viage pra uns dias dispois à noite. Iam pra estação, pegá o trem noturno pra capitar.
- O Coroné, continuou, naquela noite, tava se sentindo meio isquisito. Sento na sala e tava tomano uma cachacinha. Com sodade de sua muié, fico prestano atenção no vai e vem do PÊNDULO que tinha no carrilhão di casa, e cabo dormecendo. Cordô di madrugada, e foi vê se as mininas tava drumindo. No quarto as cama tava rumadas e nada delas. Prucura daque prucura dali, preguntô pra todo mundo, e ninguém sabia di nada. Chamo toda peãozada, quando percebeu que os novo peão, também num tavam.
- Descunjuro esses dois se tivero feito arguma coisa cas minhas mininas!
- Botô na caminhonete seus miores home, e foi pra vila, onde fico sabeno que elas tinha pego o trem.
A atenção dos homens estava em Nhô Bento, além da sua voz, parecia que não nada tinham em seu redor. Uma rodada mais de licor foi servida, e ele continuou.
- No caminho pra Capitar, o Coroné ia pensano, pru quê elas tinha feito aquilo? Deve di te sido coisa daqueles dois, num tinha ido muito co jeito deles, mas fôro mandado pelo cumpadi Venâncio, num diviam di se ruim. MAGOADO, foi pensano e alembro qui as minina pediro pra modi vir visita a capitar, mas não dexo, i agora tava rependido.
- Prá sorte du Coroné, numa cidadi du caminho, o trem demoro pra carrega di água e chego trasado, e ele assim qui botoô os pé na istação, viram as mininas saindo do trem cos peão.
- As mininas quando viro o pai, começaro a treme qui nem vara verde, e ele falo:
- Mias fia, quero pedi discurpa por nunca ter trazido oces pra cá, e vamu aproveita qui tamo aqui pra passiá. As mininas deram um largo sorriso e correram abraça o pai.
- Dispois o Coroné virou prus seus home e disse: Leva esses dois, dá uma coça bem dada, e joga eles em quarque lugar e voltem pra fazenda, eu vô fica aqui cás minina.
- Os dois, concluiu Nhô Bento, dizem que ficaro um mês sem pode senta e nem durmi di costa, ca coça qui levaro.
As cabeças dos ouvintes fizeram um movimento de aprovação ao castigo dado.
Ao fundo um acordeão “cantava”:
Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João...
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quinta-feira, 19 de março de 2009
POMPOM
Antonio Taveira
Exercício com a palavra pompom
A caixa já não tinha o seu brilho natural. Pudera, o maleiro a recebera fazia muitos anos. A memória não havia falhado, estava no mesmo lugar.
Várias coisas faziam parte deste tesouro. Aquele livro do bebê ainda tinha a mechinha de cabelo cortada, as primeiras unhas, a marquinha do pezinho e da mãozinha, fotos nossas (papai e mamãe), dos avós maternos e paternos, dos padrinhos. Como eram engraçadas as roupas daquela época. A foto do primeiro banhinho, primeiro dia de sol e algumas outras.
Outras raridades surgiram: a certidão de batismo, a velinha do ritual e a conchinha para pegar a água benta. Nos primeiro desenhinhos, sempre estávamos nós: papai, mamãe e a bebê. Os princípios da escrita, as frases e as pequenas cartinhas - tem jeito de ser escritora, diziam os babadores de plantão.
Mas o objeto procurado estava lá, com certeza. O plástico que o envolvia já estava um pouco escurecido pelo tempo, mas suas cores ainda permaneciam vivas. Com um solzinho forte, já poderiam ser usadas novamente. As luvinhas, o capuz e a capinha, com seus pompons pendurados, formavam um conjunto muito bonito e colorido que agradava muito aos olhos. Pareciam de boneca, mas realmente eram para uma linda boneca e, apesar de ser homem, e homem não brinca de boneca, adorei recebê-la de presente e brinco com ela até hoje.
A boneca cresceu. Começou a andar, foi pra escolinha, depois para a escola, passou pela aborrescência, que não foi tão aborrescente assim, teve o primeiro namorado, entrou para a faculdade, formou-se numa linda festa e casou.
Agora, minha boneca me deu um outro presente, outra boneca, tão linda quanto a que ganhei alguns anos atrás. Certamente vou brincar muito com esse novo “brinquedo”, pois agora sem aquele jeito policial de pai, vou poder estragá-la bastante.
E meu presente para ela será este lindo conjunto colorido de capuz, capinha e luvinhas, que deixará minha nova boneca tão linda quanto a primeira dona deles.
Exercício com a palavra pompom
A caixa já não tinha o seu brilho natural. Pudera, o maleiro a recebera fazia muitos anos. A memória não havia falhado, estava no mesmo lugar.
Várias coisas faziam parte deste tesouro. Aquele livro do bebê ainda tinha a mechinha de cabelo cortada, as primeiras unhas, a marquinha do pezinho e da mãozinha, fotos nossas (papai e mamãe), dos avós maternos e paternos, dos padrinhos. Como eram engraçadas as roupas daquela época. A foto do primeiro banhinho, primeiro dia de sol e algumas outras.
Outras raridades surgiram: a certidão de batismo, a velinha do ritual e a conchinha para pegar a água benta. Nos primeiro desenhinhos, sempre estávamos nós: papai, mamãe e a bebê. Os princípios da escrita, as frases e as pequenas cartinhas - tem jeito de ser escritora, diziam os babadores de plantão.
Mas o objeto procurado estava lá, com certeza. O plástico que o envolvia já estava um pouco escurecido pelo tempo, mas suas cores ainda permaneciam vivas. Com um solzinho forte, já poderiam ser usadas novamente. As luvinhas, o capuz e a capinha, com seus pompons pendurados, formavam um conjunto muito bonito e colorido que agradava muito aos olhos. Pareciam de boneca, mas realmente eram para uma linda boneca e, apesar de ser homem, e homem não brinca de boneca, adorei recebê-la de presente e brinco com ela até hoje.
A boneca cresceu. Começou a andar, foi pra escolinha, depois para a escola, passou pela aborrescência, que não foi tão aborrescente assim, teve o primeiro namorado, entrou para a faculdade, formou-se numa linda festa e casou.
Agora, minha boneca me deu um outro presente, outra boneca, tão linda quanto a que ganhei alguns anos atrás. Certamente vou brincar muito com esse novo “brinquedo”, pois agora sem aquele jeito policial de pai, vou poder estragá-la bastante.
E meu presente para ela será este lindo conjunto colorido de capuz, capinha e luvinhas, que deixará minha nova boneca tão linda quanto a primeira dona deles.
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